Fortes chuvas abalaram o Nordeste e causaram uma destruição sem precedentes em vários municípios do Estado de Alagoas. Neste cenário de caos, os voluntários da Praça C&A de Maceió deram seu exemplo de solidariedade. Sem abrir mão do senso de urgência que situações como essas exigem, eles buscaram parceiros e se mobilizaram. Leia a entrevista com Ernani Magalhães, Gerente da Loja MCC, e deixe-se contagiar pela energia deste ato voluntário. Afinal, muitas famílias continuam precisando de doações e ainda é tempo de ajudar.

Portal dos Voluntários do Instituto C&A – Como surgiu a ação de ajuda às vítimas das chuvas em AL?

Ernani Magalhães – Durante toda a semana que antecedeu a ação SOS ALAGOAS eu já estava acompanhando os noticiários locais sobre a situação das chuvas. A situação chegou aos noticiários nacionais, que relatavam a gravidade da devastação decorrentemedium das chuvas que deixaram milhares de desabrigados, alguns desaparecidos e mortos. Na segunda-feira, dia 21 de junho, encaminhei um relato da situação ao Paulo Castro. Ele nos orientou a buscar informações mais detalhadas sobre a situação e levantar se já existia alguma instituição e/ou entidade ajudando as famílias desabrigadas.

Portal dos Voluntários do Instituto C&A – Quais foram os municípios mais afetados e como era a situação das pessoas atingidas?

Ernani Magalhães – União dos Palmares, Murici, Branquinha e Rio Largo foram alguns dos municípios mais atingidos. No caso de Branquinha, praticamente noventa por cento do município desapareceu do mapa. No total, 15 cidades de Alagoas decretaram estado de calamidade.


Mesa de produção de cestas

Portal dos Voluntários do Instituto C&A – Como foi estruturada a ação emergencial do SOS Comunidade? Quais foram os públicos mobilizados e o que foi feito?

Ernani Magalhães – Após uma análise da situação, identificamos que a Arquidiocese de Maceió, através da coordenação do Bispo de Maceió, Don Antonio Muniz, era a instituição mais estruturada e mobilizada. O senso de urgência é muito importante em situações como essa. A ajuda precisa chegar o mais rápido possível, pois as necessidades não podem esperar.

Conseguimos um bom parceiro para a compra de cestas básicas e água mineral. Visitamos alguns hipermercados, mas não existiam cestas prontas para entrega. A montagem das cestas não é um serviço oferecido por estas empresas, principalmente no volume que queríamos. Este hipermercado mobilizou internamente alguns voluntários, desde o pessoal da operação até chefes de departamentos (20 voluntários), que se prontificaram a montar as cestas (total de 4.350). Levamos também alguns voluntários das lojas da praça de Maceió (14 voluntários) para ajudar no trabalho.

Além disso, o hipermercado liberou os caminhões de sua frota para fazer a entrega nos municípios atendidos. Na quarta-feira à noite, o primeiro caminhão já estava sendo enviado para Murici com cestas básicas e na quinta-feira, praticamente 80% das doações já tinham sido entregues nos municípios de Rio Largo, União dos Palmares e Branquinha. Em Rio Largo e União dos Palmares existiam frentes de trabalho da Igreja, coordenadas pela arquidiocese de Maceió. Segundo o próprio Bispo, mais de 80 voluntários estavam atuando em União dos Palmares e mais de 50 em Rio Largo.


Voluntários organizando as doações em Rio Largo

Portal dos Voluntários do Instituto C&A – Como aconteceu a parceria com a Arquidiocese de Maceió? Como esta instituição estava se mobilizando para ajudar os desalojados e desabrigados?

Ernani Magalhães – Existiam três pontos principais da mobilização. Primeiro, a própria arquidiocese de Maceió, onde estavam centralizadas todas as doações e a coordenação das atividades nos demais municípios. Em Rio Largo, a Igreja da Matriz era o centro de arrecadação. Lá também foi montada uma cozinha para o preparo de refeições destinadas aos desabrigados acolhidos em escolas, onde não era possível cozinhar. O mesmo aconteceu em Murici, onde a casa das Freiras serviu de centro para o recebimento das doações e instalação de uma cozinha maior (adaptada à realidade), usada para o preparo das refeições das famílias desalojadas. Havia ainda um outro centro de trabalho em União dos Palmares, que atendia algumas famílias do próprio município, além de Murici e Branquinha.

Em todos esses lugares havia uma estrutura de apoio de voluntários da própria Igreja e da comunidade. Cada um ou cada grupo de voluntários tinha responsabilidades como organizar as doações, cuidar da cozinha, visitar os locais atingidos para identificar as necessidades dos desabrigados ou desalojados. Existia também uma equipe só para levar a comida preparada para as escolas.

Vale ressaltar que além da ajuda do Instituto C&A para as doações, os associados, em todas as lojas da praça, fizeram campanhas internas de arrecadação de alimentos, água e roupas, entregues à arquidiocese. As lojas que mensalmente doam roupas com pequenos defeitos para uma instituição parceira aqui em Maceió (Associação Madre Esperança), fizeram as doações de roupas para a arquidiocese com intermédio da própria instituição, que se prontificou a não receber essas doações neste mês para direcioná-las ao SOS ALAGOAS. Isso foi muito importante, tanto por parte dos associados das lojas, quanto pela instituição.

Portal dos Voluntários do Instituto C&A – Quais foram as principais dificuldades que vocês enfrentaram para que esta ação de ajuda se concretizasse?

Ernani Magalhães – De verdade, nenhuma. Eu me surpreendi com a velocidade, a disposição e a vontade de ajudar dos voluntários. Todas as pessoas se mobilizaram e não colocaram nenhuma dificuldade para que pudéssemos realizar a ação da melhor maneira. Alguns dos voluntários que trabalharam na confecção das cestas básicas participaram também da entrega das doações em Rio Largo. Foi emocionante para todos.

Portal dos Voluntários do Instituto C&A – Como foi a entrega das doações às comunidades afetadas?

Ernani Magalhães – Um representante voluntário de cada loja, um representante da liderança da praça e um gerente participaram da entrega das doações em Rio Largo, que era a cidade mais perto de Maceió. E fomos conferir também, alguns dias depois, como estava a entrega das cestas em União dos Palmares. Nos demais municípios, deixamos a responsabilidade com uma das assistentes do Bisbo de Maceió, que estava acompanhando todo o trabalho nessas localidades.

Portal dos Voluntários do Instituto C&A – Pessoalmente, como você avalia a experiência de ter participado desta ação?

Ernani Magalhães – Foi uma das melhores semanas que passei desde quando cheguei à C&A. Diria até que foi um dos melhores momentos de minha vida profissional e pessoal. E acredito que não somente para mim, mas para todos os envolvidos, pois percebíamos nas lojas o quanto os voluntários que participaram estavam comentando e ao mesmo tempo contagiando a todos. Era como se todos tivessem estado lá, participando, contribuindo… Eles não sabem disso, mas estavam lá de alguma forma.


Voluntários com o Bispo de Maceió, Don Antonio Muniz

Portal dos Voluntários do Instituto C&A – Como está a situação neste momento?

Ernani Magalhães – A situação ainda é crítica. Muitas famílias continuam desabrigadas, sem casa, sem saber para onde ir. Mas muita doação tem chegado e a ajuda está vindo de toda parte.

Portal dos Voluntários do Instituto C&A – Ainda é possível ajudar? Como?

Ernani Magalhães – Claro que sim. A ajuda está chegando em grande quantidade, mas ainda precisamos muito de alguns produtos, como os de higiene, pois nesses momentos todos pensam primeiro em comida e água. E isso está chegando. Materiais como sabão, sabonete, detergente, água sanitária, pasta e escova dental para adulto e criança, roupas para crianças, fraldas descartáveis para crianças e idosos.

O Instituto lançou uma campanha nacional em todas as lojas que deverão recolher e enviar suas doações para o CDT (saiba mais aqui). O CDT enviará todos os materiais arrecadados para Maceió e nos encarregaremos de entregá-los à arquidiocese e, conseqüentemente, às famílias que estão necessitando de ajuda.

Um ponto importante relatado por todos os padres responsáveis em cada cidade é que não devemos deixar de ajudar nesse momento. Após grandes desastres existe sempre uma tendência ao esquecimento. E temos que pensar – segundo os padres – que levaremos muito tempo para colocar a vida dessas famílias em ordem. E até lá elas têm que sobreviver.